quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Crônica do Mauro Ventura (O Globo)

STF
Amigo meu, atento observador da cena brasileira, me envia texto - ficcional, diga-se de passagem - sobre decisões do Supremo Tribunal Federal. Chama-se "Na audiência":
- Levante-se o réu!
Levantei-me, desajeitado. O juiz percebeu meu desconforto.
- O acusado encontra-se algemado? Ordeno aos policiais que lhe tirem as algemas, imediatamente!
O cabo aproximou-se e me tirou as algemas, de má vontade, irritado. O juiz notou.
- A presença deste policial está constrangendo o acusado, que poderá temer por seu depoimento. Peço que ele se retire desta audiência.
Fiquei aliviado quando o PM saiu da sala. Mas ainda estava com algum mal-estar, o peito apertado, com dificuldade de respirar. O juiz reparou.
- Esta é uma audiência pública! Portanto as portas devem permanecer abertas. Determino ao escrivão que abra as duas portas desta sala.
Senti-me bem melhor. Pensei logo em fugir. Iria para o Jardim Catarina, em São Gonçalo, na casa de Dulcemar. Era só correr e alcançar a rua, nem trinta passos. Mas o que poderia acontecer? Fiquei preocupado. O promotor adivinhou meus pensamentos, e alertou:
- Excelência, o acusado pode fugir, dadas as condições criadas no tribunal.
O juiz disse:
- Informo ao acusado que, de acordo com decisão do ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, no caso Cacciola, todo prisioneiro tem direito à fuga.
Não precisei correr, mas saí em passos largos. Alcancei a rua e apressei o passo. Dei um encontrão em alguém. Era o cabo da PM. Levou um susto ao me reconhecer, surpreso. Daí que levei vantagem. Peguei sua arma e descarreguei. Só tinha três balas, mas fiz um estrago na cara dele.
Aí tive que correr, no meio do tumulto, gritando "pega ladrão!, pega ladrão!". Misturei-me aos passageiros das barcas. Segui para São Gonçalo. Dulcemar me acolheu. Ela ia fazer o quê, com três filhos pra criar? Estou fazendo uns biscates e aplicando uns golpes. Foi molinha essa fuga.

Nenhum comentário: